



















Casa D'Os Dias da Água . setembro 2006

(M.)
Primeiro surgem certos tópicos encontrados no material de páginas desenvolvidas por Michaux, como doença, como palhaço...a partir daqui: que reflexo disto no desenho? no traço? na imaginação dos tecidos, das suas cores, das suas texturas? Na súmula de tudo isto: que figuras?
À (M)ariana pertence o labor destas figuras, construir com corpos e roupa essa entidade dramatúrgica que ocupará o espaço do espectáculo no tempo que lhe é devido. As fontes sucedem-se: Michaux – texto, M – gráfico, afinidades electivas com determinadas ideias: a flor que é insecto que é flor. Libélula? Será perceptível com os filtros azuis que hoje se teimam em utilizar para arrefecer a luz? Às vezes, enquanto espectador ou cúmplice de trabalho, é nos desenhos de M. que encontro o fio do novelo para poder vislumbrar antecipadamente a cena. Os seus “carnets” de conspiração trazem com eles a anunciação da terra, da paisagem, do tempo, do peso, do clima, a que pertence aquela ideia ou aquele texto.
Aqui: botões, fechos e ferragens pôem o (M)ichaux dentro de etantdonnés de (M)arcel. Também outro M: Mertz tinha a casa na árvore. M. tem a casa como casaco. Nos ensaios de Inverno (M)ariana costuma usar um casaco preto, longo, com um ar ultra-confortável e definitivo: o seu casaco-casa.
Nos primeiros desenhos para (M)ichaux a mão faz a tentativa pavloviana do risco sem estudo, sem intenção, talvez sem vontade, o decalque possível daquilo a que a teoria literária designou por automatismo. Depois questiona-se: que figuras para tais caracteres? A seguir o olho torna útil a teimosa independência da mão com arredondamentos e interpretações; afinal uma linha sinuosa, resultado de uma certa tremura do traço, pode bem ser a silhueta humana na aba de um casaco. A cabeça, a cara, o rosto, perfis, narinas, queixos, papos. Quanto ao jogo de cores e padrões para além de precisarem da cumplicidade da iluminação, resultam talvez de zonas mais inexplicáveis da cabeça de M., que para simplificar chamarei imperativos dramatúrgicos.
As primeiras cores deste espectáculo não se conseguem fixar. São rápidas, escondem-se, desaparecem, apagam-se, cinzento? preto? pardo? pele? cinzento? Um perfil amarelo intenso é decerto garantido e mais para o fim um vermelho quase líquido ensombra ou enrubesce a grande cara de boca perdida. Baton a escorrer, hematoma, fogo que mutila, pétala gigante de uma orquídea impossivel em forma de M.

ALGUMAS INFORMAÇÕES SOBRE 59 ANOS DE EXISTÊNCIA
1899, 24/5 Namur
Um dos avós de origem alemã.
Ascendência distante espanhola.
Enfada-se com a vida, os jogos, os divertimentos e a variedade.
Comer repugna-o.
Os odores, os contactos.
A sua medula não fabrica sangue.
O seu sangue não ama loucamente o oxigénio.
Anemia
Sonha com a permanência, com a perpetuidade sem mudança. A sua maneira de existir à margem, a sua natureza de grevista assusta ou exaspera.
Enviam-no para o campo.
Envergonhado daquilo que o rodeia, de tudo o que o rodeia, de tudo o que desde que veio ao mundo o rodeou, com vergonha de si mesmo, de ser apenas o que é, desprezo também por si mesmo e por tudo o que conheceu até ao presente.
Continua a ter nojo dos alimentos, enfia-os nos bolsos embrulhados em papel e quando sai enterra-os.
Internato pobre, duro, frio
Estudos em flamengo.
Os seus condiscípulos são filhos e filhas de pequenos camponeses.
Reprimido.
Envergonhado daquilo que o rodeia, de tudo o que o rodeia, de tudo o que desde que veio ao mundo o rodeou, com vergonha de si mesmo, de ser apenas o que é, desprezo também por si mesmo e por tudo o que conheceu até ao presente.
Continua a ter nojo dos alimentos, enfia-os nos bolsos embrulhados em papel e quando sai enterra-os.
Descoberta do dicionário, palavras que não pertencem ainda a frases, não ainda a fazedores de frases, palavras e em quantidade, e das quais cada um poderá servir-se à sua maneira. Estudos com os jesuítas. Com a ajuda de seu pai, interessa-se pelo latim, bela língua, que o separa dos outros, transplanta-o: a sua primeira partida. Também o primeiro esforço contínuo que lhe agrada.
Música, um pouco.
Depois de terminar o liceu, estando a universidade fechada por causa da ocupação, dois anos de leituras, bricolage intelectual.
Não se apresenta a exame.
Abandona a medicina.
Regresso à cidade e às detestadas pessoas.
Nojo.
Desespero.
Trabalhos e empregos diversos, medíocres e mediocremente exercidos.
Auge da curva do “falhado”.
Primeiras páginas. Franz Hellens depois Paulhan veêm aí qualquer coisa, os outros não vêem nada. Sempre reticente. Não gostará de “ter de “ escrever.
Isso impede de sonhar. Isso fá-lo sair. Prefere ficar enrolado. Bélgica definitivamente abandonada.
Não consegue encontrar um pseudónimo que o englobe, a ele, ás suas tendências e ás suas virtualidades. Continua a assinar com o seu nome vulgar, que detesta, que o envergonha, como uma etiqueta que trouxesse a menção “qualidade inferior”. Talvez o guarde por fidelidade ao descontentamento e à insatisfação. Não produzirá pois nunca no orgulho, mas arrastando sempre esse embaraço que se colocará no fim de cada obra, preservando-o assim do sentimento mesmo reduzido de triunfo e de conclusão.
Klee depois Ernst, Chirico... extrema surpresa. Até aqui, odiava a pintura e o próprio acto de pintar, “como se não houvesse já suficiente realidade, dessa abominável realidade, pensava. Ainda querer repeti-la, regressar a ela!”
Empregos diversos. Algum tempo numa casa de edição, ao serviço da fabricação.
Morte do seu pai. Dez dias mais tarde, morte da sua mãe.
Viagens pela Turquia, Itália, África do Norte...
Viaja contra.
Para expulsar de si mesmo a pátria, laços de todos os géneros, laços de cultura grega ou romana ou germânica ou de hábitos belgas.
Viagens de expatriação.
A recusa no entanto começa a ceder um pouco ao desejo de assimilação.
Terá muito a aprender. Isso será demorado.
As Índias, o primeiro povo que, em bloco, parece responder ao essencial, que no essencial procura a saciedade, enfim um povo que merece ser distinguido dos outros. A Indonésia, a China, países sobre os quais escreve demasiado depressa, na excitação e na surpresa maravilhada de ser tocado a tal ponto, países sobre os quais seguidamente terá de meditar e ruminar durante anos.
Lisboa – Paris.
Montevideo, B. Aires.
Começa a desenhar mais.
Brasil
Regresso a Paris. Em Julho, êxodo. Santo António. Em seguida Lavandou.
Lavandou com aquela que será em breve sua mulher.
Regresso a Paris. Ocupação alemã.
Enfraquecida pelas restrições alimentares, a sua mulher contrai tuberculose.
Juntos em Cambo. Melhoras.
Quase a cura. Viagens de convalescença e esquecimento dos males no Egipto.
Morte da sua mulher como consequência de atrozes queimaduras.
1951-52-53.
Escreve cada vez menos, prefere pintar.
1955
Naturalizado francês.
Primeira experiência de Mescalina.
Parte o pulso direito. Osteoporose. Mão inutilizável.

Ela vive, na verdade, erra no meio de nós, a CARA DE BOCA PERDIDA”

encenação e cenografia Nuno Carinhas
figurinos Mariana Sá Nogueira
actores Paula Sá Nogueira, André E. Teodósio, Marcello Urgeghe
apoio dramatúrgico Manuela Correia
desenho de luz Alejandro Gangotyena
montagem de luz José Manuel Rodrigues
video André Godinho
design gráfico Paulo Reis
fotografia Steve Stoer
construção de cenografia Pedro Vaz
adereços Nuno Tomaz
O exterior não se lhe moldava, o inteiror muito menos.
Algures, alguém…
Algures alguém é cão e ladra à lua
Alguém nasceu chinesa e agora tem 17 anos
Alguém é loira e a sua irmã está viva, verdadeiramente petulante
Alguém o seu pai é escocês das terras altas
Alguém... e depois isso retiniu-lhe nos rins e agora acabou-se, ele diz que lhe agrada tanto morrer no hospital
Alguém tem grandes vigas em casa
Alguém, quer um pouco mais de natas. Mas outro alguém, é a existência de Deus que lentamente o mastiga.
Alguém acaba de ter um momento de orgulho que expiará duramente.
Alguém, chove.
Alguém, desta vez chove muito.
Alguém os vizinhos do lado entram de repente
Alguém não houve vento hoje, e a onda de fundo é ainda forte
Alguém continua a chover; mau para o tecto
Algures, alguém renasce insecto, alimentando-se de excrementos durante todo o dia, com as antenas mergulhadas na substância fétida; tentando lembrar-se de uma vida anterior, apesar de si mesmo, sonha com um futuro onde os excrementos serão mais copiosos e mais uniformemente distribuídos de modo a que cheguem para todos.
Alguma coisa algures é carril, sob um comboio de seiscentas toneladas, e dobra e vibra, e por fim reergue-se.
Alguém, zut para mim.
Alguém porco-épico-clarinete.
Alguém, apenas clarinete.
Alguém o seu barco é a sua ilha.
Alguém, a sua miséria é a sua ilha.
Alguém, o seu vestido é a sua ilha.
Alguém, a sua infância é a sua ilha.
Alguém fazer a sopa na cozinha é a sua ilha.
Alguém, é quando os outros falam, a sua ilha.
Alguém, não tem ilha.
Alguém, tem apenas uma pequena ilha.
Alguém, ia agora gostar disso uma ilha.
Alguém, em 1938 acabaram-se as ilhas, morte às ilhas, todos de uniforme.
Alguém, uma corrente de ar é o suficiente para pôr a sua ilha em perigo.
Alguém, estar em desacordo com a família é a sua ilha.
Alguém, há mais rio que ilha.
Alguém, há mais barragem que rio.
Alguém, há mais horizonte que barragem.
Alguém, há mais conhecimento que horizonte.
Alguém, já não segue a encosta.
Alguém, talento como as minhas botas.
Alguém, diplomata circunstância.
Alguém, mais trepar do que pensar.
Alguém, para ele o acordar é um pistáchio.
Alguém, para ele o acordar é uma chávena.
Alguém, para ele o acordar é um remédio.
Alguém, pare ele é um brilho.
Alguém, para ele é um prego.
Alguém, para ele o sono é um melão
Alguém dorme num lago. Ora num lago ora numa cisterna.
Alguém dorme numa turbina; ora numa turbina ora num carrossel.
Alguém, tem um sono de cordeiro.
Alguém é desses que têm prazer coçar um gato debaixo de um toldo.
Alguém é desses que não têm mais que o seu medo para meter na cabeça.
Alguém é desses que têm 50 vezes 20 anos antes de envelhecer.
Alguém é metafísico-ansioso abdominal.
Alguém vê de um lado sóis, do outro serpentes.
Alguém é desses que, mesmo em sonhos, não ressuscitariam um surdo com medo de ter ainda de lhe gritar ao ouvido: “Vai... vai... vai-te embora, sim, vai.”
Alguém o seu pedestal está perdido na lama.
Alguém tem a alma concentrada.
Alguém tem a alma em farrapos ou amanteigada.
Alguém é desses que por volta das 5 horas sentem um peso como uma meditação, mas é sobretudo constipação.
Alguém é desses que se preparam para ir ver um rio mas assim que lá chegam voltam-lhe as costas... estão felizes ainda assim.
Alguém é desses que preparam um descarrilamento numa linha onde nunca em dez anos passou um comboio.
Alguém algures se chama Lou.
Alguém é por seu lado rodeado de “tivesse eu querido”.
Alguém é amigo do bosque.
Alguém é amigo da água.
Alguém, não, não é assim que ele entendia a vida.
Alguém, é nos mares do sul, pensa ele, que estará bem.
Alguém, à volta de alguém passa-se qualquer coisa, é como se passeássemos. Mas é a situação e na mesma ladramos.
Alguém, se não lhe faltasse fio nas patas, seria bem aranha.
Alguém é demasiado sensível para amar, faz-lhe mal.
Alguém, para ele o amor é apenas entre dois.
Alguém, para ele o amor toma o lugar de melhor.
Alguém é desses que ficam perturbados de prazer à vista de um seio no seguimento, acreditam, da cor rosa tão finamente filtrada pela pele que é quase branca.
Alguém numa época mais agitada, o cortaria com um prazer ainda maior, mais secreto, mais pessoal.
Alguém tem há já algum tempo a sua maldade estropiada.
Alguém tem surdi-santidade.
Alguém, pensando, afasta-se.
Alguém, pensando, aproxima-se.
Alguém, pensando, reforça-se.
Alguém, pensando enfraquece e torna-se anémico.
Alguém, nunca tem um pensamento fresco.
Alguém, nunca tem um pensamento a não ser num cortejo fúnebre.
Alguém, com o objectivo de pensar, pensa ele, pensa.
Alguém, não tem medula que corresponda à sua figura.
Alguém, tomam-no pelo seu pólo e levam-no devagar, muito devagar onde querem.
Alguém, com os seus 47 cromossomas é um valente imbecil.
Alguém a esta hora vê o mar, sente o odor do mar, banha-se no odor do mar
Alguém não sabe fazer o seu ninho no aço.
Alguém é desses que se ajoelham no mar.
Alguém mesmo numa chama molha-se
Alguém, tem metralha no riso
Alguém é árabe. O delírio de culpabilidade nunca se observou no árabe.
Alguém pelo avanço da ciência, matou com 926 ovos de abelha uma jovem serpente venenosa que ficou seriamente espantada.
Alguém armazena bolas de Okoume, na Nigéria.
Alguém Hono Lulu Loukoum
Alguém ara num pedestal.
Alguém fili, golli, golla.
Alguém o sol já não brilha sobre a sua árvore.
Alguém já não se passa mais nada na sua vida, mais nada, mais nada mais nada a não ser o vazio, mais nada, mais nada.
Aspira ao silêncio, alguém.
Alguém procura uma nova janela..